02 Junho, 2009

Manual de como Dançar o Tango Argentino em Paris

Ele disse:
– Para que se saiba, eu não gosto de dançar. A minha falta de jeito vai bem mais para além de poder vir a pisar os teus pés. E irei pisá-los, acredita. Eu entorto os joelhos para dentro.
E ela imitou-o. Como ? Assim? Levantando o vestido negro de costas abertas. Os seus joelhos eram ponteagudos como seixos e pareciam caber em palmas de mão. Nas palmas das suas mãos.
– Ouve-me - continuou. Eu suo da mãos. Eu suo terrivelmente das mãos e depois da testa, das fontes e da cara inteira. Ias detestar.
Ela agora dançava, dava voltas sobre si própria a uma velociadade impressionante com o xaile encarnado carmim a fazer malabarismos no ar.
– Já estou suada, vez o meu pescoço, a minha testa, as minhas mãos.
– Mas é que eu não seria capaz de te conduzir sabes? Eras tu a ir para a direita no ritmo certo e eu a ir irremediavelmente para a esquerda no ritmo errado, Cairíamos ao rio. Seria uma tragédia. Nunca mais me falavas.

Não, agora que já ensaiámos os teus medos, a única coisa a fazer é tocar um tango argentino!
Era de facto uma rapariga fabulosa e acabava de me convencer a ir com ela dançar para as margens do Sena o tal  Tango Argentino. 
Eu que nunca sequer fui nem faço tensões de ir à Argentina, eu que abomino qualquer tipo de dança que requeira a minha participação. Eu que suo das mãos, da testa, entorto os joelhos para dentro, entorto os joelhos para fora, piso os pés, piso os sapatos e a borda dos sapatos.
Eu que estou apaixonado por uma dançarina do Tango. Do Tango Argentino.


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